
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,
Minha presença aqui, hoje, para receber o honroso título de Doutora Honoris Causa, que me foi outorgado pelo egrégio Conselho Universitário da Universidade Federal da Paraíba – UFPB, meu estado de origem, reveste-se, para mim, de profundo significado e de forte simbolismo, considerando minha inusitada trajetória de vida e relação com esta respeitável Universidade.
Nasci na Vila de Belém, atual cidade de Uiraúna, no sertão paraibano e, na adolescência, vivi em diferentes cidades do Estado, na companhia de uma tia, irmã de minha mãe, cuja filha mais velha era professora primária e quem sustentava a família com seu minguado salário, completado com a pequena renda que sua mãe viúva auferia como costureira.
Apesar das dificuldades que enfrentavam para manter e se manterem, elas me acolheram para que eu pudesse fazer o curso ginasial, após o primário que cursei no grupo escolar da vila onde morávamos. Mas não foi fácil, pois eu era mais uma boca entre tantas e com pouca comida.
Sou a sétima de uma família de dez filhos que, a cada ano sem chuva, migrava para escapar do flagelo da seca e travar a luta pela sobrevivência. Desde muito jovem tomei consciência de que eu precisava estudar se quisesse romper com as condições a que as jovens da minha geração e classe social eram submetidas, e que, assim, reproduziam o padrão de vida e pobreza, predominante no nosso meio.
Em busca, portanto, de alternativas para poder estudar, já que na nossa vila só havia o curso primário, tive que migrar dentro do próprio estado. Foi, então, que contei com a generosidade daquelas parentes a que já me referi, e que possibilitaram que eu fizesse o curso ginasial com bolsas de estudo obtidas pela minha prima professora nos estabelecimentos de ensino onde lecionava. Moramos em Patos, Campina Grande e João Pessoa, até concluir o colegial, quando precisei trabalhar durante o dia e estudar à noite.
Concluído o colegial em Campina Grande, fui forçada a adiar o sonho de ser médica, para que minhas três irmãs mais novas, pudessem pelo menos cursar o ensino médio. Daí suspendi meus estudos e aguardei nove anos para fazer faculdade. Foi quando decidi pelo curso de Serviço Social na Escola de Serviço Social da UFPB, da turma de 1966, que, por sinal, me escolheu sua oradora na formatura realizada em 18 de dezembro daquele ano. Selecionada em concurso público para oradora das turmas concluintes de todos os cursos da Universidade, tive a honra de participar da solenidade de formatura na data de 16 de dezembro daquele mesmo ano. Na ocasião, como porta-voz dos colegas formandos, destaco o seguinte trecho do meu discurso como oradora em que “manifestei nossa alegria por encontrar-se entre nós, na qualidade de paraninfo, Sua Excelência Reverendíssima Dom José Maria Pires, Arcebispo da Paraíba”, de saudosa memória.
Declaramos, na oportunidade, que “Ao escolhê-lo nosso paraninfo, quisemos prestar-lhe, em nome da Paraíba, uma homenagem justa e sincera, pelo grande zelo que demonstrava no governo desta porção da Igreja de Deus em terras paraibanas. Aqui, fez-se um conosco; tornou-se nordestino entre nordestinos; paraibano entre paraibanos”. Acrescentaria, ainda, por oportuno, que a UFPB o laureou no ano de 2013, Doutor Honoris Causa desta importante Universidade.
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,
Não poderia deixar de registrar, também, o estágio de Conclusão de Curso que realizamos no bairro Cordão Encarnado, na periferia de João Pessoa, onde a paróquia Nossa Senhora de Lourdes, cujo vigário era, na época, o saudoso Padre José Trigueiro do Vale, tinha um trabalho comunitário junto aos moradores da favela. Dessa experiência, resultou a monografia final de curso, sob o título: “Visão Global do Serviço Social e seus Processos”, e a base para minha futura dissertação de mestrado: “Integração em Serviço Social”.
Ao mesmo tempo em que eu concluía o curso de Serviço Social, trabalhava como funcionária administrativa da Superintendência do INPS da Paraíba. Graduada em Serviço Social pela Escola de Serviço Social, que deu origem ao Curso de Serviço Social da UFPB, no final dos anos 60, lecionei no curso que estava em meio à integração e federalização junto a esta Universidade.
No final de 1966, passei a atuar ao lado de Dom José Maria Pires, em um trabalho de organização dos trabalhadores rurais de cidades próximas a João Pessoa, alguns, remanescentes da repressão da ditadura civil-militar sobre as Ligas Camponesas. Era um trabalho de educação popular. Nos finais de semana, íamos para o campo nos reunir com os camponeses e suas famílias, para discutir seus problemas e o massacre que sofreram do regime militar que ceifou as principais lideranças do movimento. O medo era de tal ordem que muitos escondiam sua condição de camponeses. A presença física de Dom José Maria Pires nas reuniões era fator de segurança para os presentes que participavam daqueles encontros.
Na mesma época também ministrei alguns cursos no Instituto de Ensino Superior de Pernambuco, por meio do qual consegui uma bolsa da CAPES para fazer o mestrado em Ciências Sociais, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, nos anos de 1968 e 1969. Dissertação defendida e graduada em Ciências Sociais, retornei à Paraíba na expectativa de conseguir lecionar na UFPB. No final de 1969, mantidos os primeiros contatos, abriu-se a possibilidade de vir a integrar seu corpo docente. Cheguei a me preparar para assumir uma disciplina do Departamento de Ciências Sociais, tendo, inclusive, participado de reuniões da equipe que discutia a reformulação do currículo, programas de curso e planos de aula para o ano letivo seguinte.
Num final de semana, sexta-feira ou sábado, recebi um recado da professora Wilma Cardoso, diretora do Departamento de Ciências Sociais. Ela queria falar comigo em seu gabinete. Não estranhei nada, pois na segunda-feira seguinte, assumiria as aulas a mim designadas. O que a diretora queria informar, porém, era que minha contratação fora vetada pela Universidade. Pedi explicações. Ela disse que não as tinha e que a ordem teria vindo de cima; era determinação do Reitor.
Imediatamente, pedi que ele me recebesse em audiência, o Dr. Guilhardo Martins, médico e oficial do Exército. A conversa em sua sala foi muito tensa. E terminei exigindo que me desse por escrito as razões do veto ao meu nome. Guardo, até hoje, o ofício no qual o reitor declara que o veto viera dos militares.
Indignada, retomei minhas aulas na Escola de Serviço Social e o trabalho no INPS. Ao lado de Dom José Maria Pires, ajudei a criar o Instituto de Formação para o Desenvolvimento – INDES, em João Pessoa, do qual fui diretora até janeiro de 1971.
Eu sentia, então, que o cerco se fechava à minha volta. Em agosto de 1971 fui de férias a São Paulo para participar do concurso que o INPS promovia para assistente social, no qual estava inscrita. Passei e fui classificada em oitavo lugar.
Juntei-me, então, aos milhões de imigrantes que, por livre vontade ou por necessidade, fomos para São Paulo – Cidades dos Mil Povos, que nos acolhe a todas e todos e nos oferece oportunidade de trabalho e de realização pessoal. E não o faz de forma paternalista, mas de modo exigente e desafiador.
MAGNÍFICA REITORA,
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,
Confesso que preferia ter ficado no Nordeste, vivendo e trabalhando onde nasci e iniciei minha atuação profissional, interrompida por perseguição da ditadura militar, pelo “crime” de apoiar o movimento em defesa da reforma agrária. Tomei consciência, muito cedo, de que o problema do Nordeste não é a seca, mas, sim, o latifúndio improdutivo. E de que também não é a falta d’água, pois há muitos açudes construídos pelo poder público, nos períodos de estiagem, pelas frentes de trabalho criadas para absorver a mão de obra, com uma renda miserável no nível de sobrevivência, e sem nenhum direito. Mas os açudes são construídos nas terras dos latifundiários com dinheiro público, portanto, as águas das chuvas acumuladas também passam a ser de propriedade privada, dos donos da terra. Mantida essa lógica perversa, não tem como acabar com a pobreza no Nordeste. Resta ao camponês sem terra e sem água, arribar para São Paulo, ou outras cidades do sul do país. E lá, quando ele chega, não tem onde morar, aí o jeito é se amontoar nas favelas, cortiços e baixos de viadutos. Essa é a saga do nordestino sem terra para trabalhar e sem casa para morar, pois até hoje os governos do país não fizeram nem a reforma agrária, nem a reforma urbana, sem o que não há como democratizar o acesso à terra, seja no campo, seja na cidade, concentrada nas mãos de poucos proprietários.
Chegando em São Paulo fiz concurso público para o cargo de assistente social da prefeitura da capital paulista. Bem classificada, fui nomeada e passei a trabalhar na periferia pobre da cidade junto à população das favelas, cortiços e baixos de viaduto. Com o apoio e indicação de colegas, ministrei aulas de sociologia e de serviço social em várias faculdades de serviço social do interior e do litoral do Estado de São Paulo e também na capital; na Faculdade Paulista de Serviço Social e na PUC-SP, a mesma PUC que acolheu Paulo Freire, quando retornou do exílio, perseguido pela Ditadura, a convite, na época, de Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal de São Paulo, que o visitou na Europa onde permanecia exilado; exílio que durou longos e sofridos dezesseis anos.
Juntei-me também aos assistentes sociais, meus colegas de profissão, no processo de organização política da categoria dos assistentes sociais brasileiros. Começamos com a reativação da Associação Profissional dos Assistentes Sociais de São Paulo (APASSP), desativada durante o período de 1970-1977 em decorrência do golpe militar de 1964. A recriação da entidade sofreu resistência inclusive do Conselho Regional dos Assistentes Sociais de São Paulo. Convocada por uma junta diretiva, apresentou-se chapa única, composta por doze membros e presidida por mim, foi eleita para um mandato de dois anos e empossada no dia 10 de maio de 1978, e logo deu início ao processo de organização e mobilização da categoria em torno das questões de seu próprio interesse e dos interesses dos setores populares da sociedade.
A APASSP foi determinante na organização e mobilização política dos assistentes sociais no Estado de São Paulo e em todo o país. Inclusive teve papel preponderante no processo de reconceituação do serviço social que envolveu os profissionais brasileiros e latino-americanos. Vale destacar, também, a influência da APASSP e demais entidades sindicais da categoria na realização do 3° Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, realizado em São Paulo no ano de 1979, considerado um marco histórico na trajetória do Serviço Social no Brasil, denominado “Congresso da Virada”, a partir do qual os profissionais do Serviço Social passaram a engajar-se na luta de resistência à ditadura militar e, consequentemente, suas lideranças foram perseguidas e reprimidas nas instituições onde trabalhavam.
MINHAS AMIGAS, MEUS AMIGOS
A partir da minha militância sindical como assistente social, dei um outro salto; parti para a luta política institucional, sem, porém, deixar a luta profissional junto aos setores populares. Com os sindicalistas do ABC, com Lula à sua frente, passamos a construir o Partido dos Trabalhadores (PT). Como militante petista, a história me levou por diversos caminhos: vereadora da Câmara Municipal de São Paulo; deputada estadual da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo; Prefeita Municipal de São Paulo; deputada federal, atualmente no exercício do sétimo mandato, este pelo partido Socialismo e Liberdade (PSOL-SP).
No momento, estou me organizando para uma nova empreitada: juntar-me à população para retomarmos a luta pela construção do poder popular. Assim, retorno ao ponto onde comecei; inspirada e movida pelo sonho: ajudar o nosso povo a fazer história, não só no sentido de mudar sua própria comunidade de vida e o seu ambiente de trabalho, mas sobretudo unir-se a muitos outros, conscientes de seus direitos e da própria força para protagonizar a virada para um novo ciclo histórico-social, um novo tempo, uma nova humanidade.
O tempo de espera acabou. Do nosso grito, nasce a “Semente da Esperança” revolucionária. Dizemos “basta ao salve-se quem puder”. Ou nos salvamos todos agora, ou não haverá salvação. Lançamos “Sementes da Esperança” porque não nos rendemos à cultura do descarte, do medo, do ódio, da fragmentação, da indiferença e da resignação.
Juntos e juntas conjugaremos o verbo esperançar como nos ensinou o mestre Paulo Freire, rumo à concretização do nosso sonho: construirmos uma nação justa e soberana onde todas e todos terão assegurado o pleno exercício da sua cidadania.
Comovida, agradeço ao egrégio Conselho Universitário da UFPB, nas pessoas de sua nobilíssima presidente, professora Terezinha Domiciano e da digníssima professora Adriana Diniz, o título de Doutora Honoris Causa, a honrosa homenagem que dedico: aos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra para trabalhar; aos trabalhadores e trabalhadoras urbanos sem casa para morar; aos mártires das Ligas Camponesas. Na pessoa de Elizabeth Teixeira, símbolo histórico da resistência e da luta heroica pela reforma agrária no Brasil, a quem o então governador Ricardo Coutinho concedeu a “Medalha da Liberdade” por ocasião da celebração dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, no dia 10 de dezembro de 2018.
Elizabeth Teixeira tornou-se uma lenda pela fantástica trajetória de vida, lenda que se materializou na luta heroica de uma mulher do povo do sertão agreste da Paraíba, que sabia ter direito a direitos, que ousou a lutar por eles, e continua a saga sem fim dos camponeses sem terra que doam a própria vida para ver a terra ser dividida como um direito humano fundamental.
Elizabeth Teixeira, por ocasião do ato em que recebeu a justa homenagem, fez um discurso inflamado, com voz firme e segura, defendendo a reforma agrária. Sonho que jamais envelhece e do qual Elizabeth nunca desiste, mantendo viva a memória do companheiro de vida e de luta, João Pedro Teixeira, mártir da luta pela democratização do acesso à terra e pelo fim do latifúndio no Brasil.
Dedico, finalmente, esta honrosa homenagem a meus queridos e saudosos pais, Enedina e Tonheiro, que eram analfabetos, mas que recebi deles o doutorado que forjou o meu caráter, baseado em princípios e valores éticos, e que me formaram com a irresistível força do seu exemplo.
Reitero, pois, com humildade e profunda gratidão esta homenagem. Levo comigo não só o título de Doutora Honoris Causa, mas também o compromisso de continuar servindo ao nosso povo em São Paulo, no Nordeste e no Brasil.
Finalmente, aproveito este momento solene para solidarizar-me com o povo brasileiro, na pessoa do nosso digníssimo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que está sendo alvo de abomináveis ataques de um inimigo externo.
Juntos e juntas estamos determinados e determinadas a irmos às últimas consequências na defesa da soberania da Nação Brasileira construída com sangue, suor e lágrimas do nosso povo.
Tirem as mãos sujas da nossa Pátria!
Muito obrigada.