“UMA GUERREIRA QUE NÃO FOGE A LUTA”
Publicado em 29/08/2017

Morre um profeta, um homem de Deus!

Erundina comenta morte de Dom José Maria Pires

Creditos: Luiza Erundina

Morre um profeta, um homem de Deus!

Estou profundamente sentida. Acabo de receber a triste notícia do falecimento de um amigo e grande pastor da Igreja no Brasil - Dom José Maria Pires.

Tive o enorme privilégio de conviver e trabalhar com ele, na Paraíba, na década de 60, em plena ditadura militar; ele, Arcebispo, e eu, Assistente Social, ambos envolvidos na luta contra a ditadura militar e pela Reforma Agrária, na Pastoral da Terra da Arquidiocese.

Nos finais de semana, íamos para o campo, lá pelas bandas de Sapé, conversar, debaixo de latadas, com os camponeses que estavam dispersos e com medo, pois viviam o rescaldo do massacre às Ligas Camponesas naquela região.

Dom José era um dos dedicados pastores, no Brasil, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, da estirpe e grandeza de outros pastores, como D. Hélder Câmara, D. Paulo Evaristo Arn's, D. Luciano Mendes, D. Angélico Sândalo, D. Casaldáliga e tantos outros Bispos que resistiram com destemor ao regime de força que perseguia e punia quem se opusesse a ele, denunciasse seus crimes bárbaros, e se mantivesse do lado dos perseguidos e oprimidos.
Em razão desse trabalho junto com ele, tive que sair do meu Estado, fugindo da perseguição e para escapar do pior.
Vim para São Paulo magoada por ter que deixar a luta pela democratização da terra no campo, contra o latifúndio e os latifundiários que, poucos anos depois, assassinaram, bárbara e covardemente, a sindicalista Margarida Maria Alves, e, até os dias de hoje, continuam matando índios e trabalhadores que lutam pelo direito à terra, pelo direito à vida.

Trabalhando nas favelas e cortiços da periferia de São Paulo, me dei de que a luta lá e cá era a mesma: seja pelo direito à terra, para trabalhar, seja, para morar.

Dom José, o bispo negro, também assumiu a luta em defesa dos afrodescendentes, e contra a opressão aos milhares de jovens negros e pobres assassinados na periferia das grandes cidades.

Obrigada, portanto, Dom José, por tudo o que fez pela Igreja e pelo povo sofrido do nosso país.

De onde estiver o seu espírito que nos inspire e nos anime a continuarmos a luta pelos direitos humanos e sociais do nosso povo, que hoje, como no passado, estão sendo gravemente violados por um governo ilegítimo e corrupto.

Que Deus o acolha no Seu seio e nos conforte neste difícil momento de perda e dor.